Mulheres do Cerrado: memória, trabalho e oralidade
- Flavia Rodrigues
- 27 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

No coração do Cerrado, as mulheres são alicerces da memória, da cultura e da resistência. Em cada bairro, feira ou comunidade do entorno de Palmas, elas sustentam muito mais do que famílias: sustentam modos de vida, redes de cuidado e formas de saber que atravessam gerações.
Na Casa das Memórias Palmenses, as vozes femininas ocupam lugar central. São relatos que falam de trabalho duro, de criação de filhos, de fé, de saberes tradicionais, de luta por moradia e dignidade. Ao compartilhar suas vivências, essas mulheres transformam o íntimo em coletivo e o cotidiano em patrimônio.Em muitos depoimentos, vemos como as mulheres foram as primeiras a chegar, a construir casas, abrir estradas e plantar quintais. Outras nos falam de como cuidavam da vizinhança, organizavam festas religiosas, lideravam associações ou vendiam nas feiras com firmeza e coragem.
São histórias atravessadas pela oralidade: elas aprenderam ouvindo, ensinam contando e vivem lembrando.Essas narradoras não apenas registram a própria história – elas reinterpretam o tempo, reelaboram dores, celebram conquistas. Sua palavra é ação: cria, denuncia, acolhe, orienta. Ao ouvirmos essas mulheres, compreendemos o Cerrado não como um espaço neutro, mas como território de vida marcado por gênero, classe, raça e ancestralidade.
A presença feminina na memória palmense não é coadjuvante. É eixo. E ao ocupar esse lugar de fala no museu virtual, essas mulheres nos mostram que recordar também é um ato político.A Casa das Memórias Palmenses valoriza essas vozes e reafirma o compromisso de manter o museu como espaço vivo, onde cada mulher possa se reconhecer, se inspirar e se ver representada.
Se você também carrega uma história de vida no Cerrado, especialmente se é mulher, te convidamos: conte sua história. Sua memória importa. Sua voz constrói esse acervo.
Dona Luzia Alves – Feirante, 68 anos, Taquaruçu
“Eu vim pra Taquaruçu em 1983, quando nem as ruas tinham nome ainda. Meus meninos eram pequenos, e eu vendia pão de queijo, banana e sabão de coco na beira da estrada. Depois virou a feira. A gente não tinha barraca de alumínio, era lona amarrada com barbante e caixote. Mas nunca deixei de ir. Vender na feira era como rezar: tinha que fazer com fé. Hoje eu olho pra trás e vejo que minha história tá nas mãos calejadas. E nas palavras que ensino pras minhas netas quando conto do tempo da enxada.”
Maria José dos Anjos – Parteira e rezadeira, 56 anos, região do Taquari
“Minha avó era parteira, minha mãe também. Aprendi na prática, ajudando a pegar menino com pano fervido, folha de laranja e oração. Nunca ganhei diploma, mas ‘dona de barriga’ vinha me chamar de longe. E eu ia com minha sacolinha, meu terço e minhas mãos. Já rezei criança com quebranto e mulher com coração doído. Sempre digo: palavra boa cura, e erva boa também. Hoje é tudo hospital e farmácia, mas o povo ainda me procura quando a alma dói. Eu sou guardadora de memória, não por querer... por ser.”
Eliete Barros – Educadora popular, 64 anos, Aureny III
“Fui criada em casa de chão batido, mas cheia de livro. Minha mãe fazia mutirão com as vizinhas e depois lia cordel pra gente. Aprendi a falar firme e a escutar as mais velhas. Dei aula embaixo de árvore, fiz roda de conversa com adolescente, e lutei pra mulher preta ser ouvida aqui em Palmas. A gente escuta muita coisa calada... mas também tem hora que a gente levanta e fala. Contar a nossa história é não deixar ninguém inventar por nós.”





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